Resistência.

Resistência · Parte 3 de 4 · Tráfico de animais

Risco biológico na rota do tráfico de animais

Estresse, confinamento e convívio com humanos transformam animais traficados em reservatórios de bactérias resistentes

Por Thabata Oliveira 3 de novembro de 2026 6 min de leitura
Sabiá-laranjeira, ave de peito alaranjado e dorso pardo, pousada sobre um tronco, com fundo verde desfocado.
Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris). Uma ave da espécie, resgatada do tráfico em São Paulo, carregava uma bactéria resistente associada a infecções hospitalares. Foto: Dario Sanches / Wikimedia Commons

A ação da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo livrou um sabiá-laranjeira do tráfico de animais silvestres, mas não foi suficiente para salvá-lo. Encaminhada ao Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (CEMACAS), a ave apresentava lesões na pele da cabeça. A análise de uma amostra coletada da região identificou a bactéria Staphylococcus epidermidis, frequentemente associada a infecções hospitalares em humanos. O tratamento com cefalexina e cetoconazol não surtiu efeito. O quadro clínico se agravou e o animal acabou sendo submetido à eutanásia. Em laboratório, a bactéria se mostrou resistente a cinco dos dez antimicrobianos testados, característica que, segundo os pesquisadores, pode ter contribuído para o fracasso do tratamento.

O caso, descrito em artigo publicado em 2026 na revista Veterinary Research Communications, chama a atenção para um aspecto pouco discutido do tráfico de animais silvestres: o risco sanitário. Além de retirar indivíduos da natureza e ameaçar a biodiversidade, o comércio ilegal pode favorecer a circulação de bactérias resistentes a antibióticos entre animais, pessoas e ambientes. “Muitos desses animais do tráfico vêm de lugares distantes, como a Amazônia, e chegam em condições precárias”, afirma o professor Marcos Bryan Heinemann, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP).

Bactérias se tornam resistentes quando sofrem mutações ou adquirem genes — vindos do próprio ambiente ou de outras bactérias — que as tornam capazes de sobreviver a medicamentos antes eficazes contra elas. Quando um antibiótico é usado de forma inadequada ou excessiva na medicina humana ou veterinária, as bactérias sensíveis são eliminadas, enquanto as resistentes sobrevivem. Com isso, elas não apenas se multiplicam e se espalham pelo ambiente, como também podem compartilhar esses genes de resistência com outras bactérias.

O problema já é uma das principais ameaças à saúde global. Em 2021, a resistência antimicrobiana causou diretamente a morte de 1,14 milhão de pessoas, segundo estudo publicado em 2024 na revista The Lancet. Mantidas as tendências atuais, o número de mortes humanas causadas diretamente pelo problema deve chegar a 1,91 milhão por ano em 2050, somando mais de 39 milhões entre 2025 e 2050.

Rota de disseminação

O tráfico de animais silvestres cria condições ideais para a circulação e disseminação de bactérias resistentes. Durante a captura, o transporte e a passagem por intermediários, os animais enfrentam privação alimentar, desidratação e estresse extremo, fatores que enfraquecem o sistema imune. O confinamento e a convivência próxima com fezes ou com espécimes de origens distintas agravam o cenário. “O receptador costuma receber animais de vários locais e misturá-los. Isso gera estresse e coloca em contato bactérias diferentes, que podem trocar genes de resistência entre si”, explica Heinemann.

O risco persiste mesmo após a apreensão. Em resgates de grande porte, nem sempre há infraestrutura para o isolamento adequado, e indivíduos de proveniências diversas acabam alojados juntos. “Se houvesse um transporte adequado, com a separação desses animais, a disseminação seria muito menor”, afirma Gabriel Siqueira dos Santos, doutorando na FMVZ-USP. Segundo ele, o manejo, o transporte e o estresse contínuo alteram a microbiota dos animais, favorecendo a colonização e a infecção por bactérias resistentes.

Além da troca de microrganismos entre a própria fauna, a rota do tráfico aproxima esses animais do convívio humano e dos centros urbanos. “Essas bactérias são selecionadas dentro de um ambiente antropizado. Nós usamos antimicrobianos, descartamos no lixo, no esgoto, então tem toda uma microbiota urbana selecionada para a resistência”, diz Santos.

Em seu doutorado, Santos investiga a presença de bactérias resistentes na microbiota de gambás, animais silvestres adaptados à vida nas cidades. Em estudo anterior com quatis no Parque Ecológico do Tietê, a equipe identificou bactérias Escherichia coli multirresistentes em 56,4% dos animais examinados, um indício de como a urbanização pode favorecer a circulação desses microrganismos na fauna.

Classes críticas

Os antibióticos são divididos em classes, que reúnem medicamentos com características e mecanismos de ação semelhantes. Uma bactéria é considerada multirresistente quando apresenta resistência a pelo menos um medicamento de três ou mais classes diferentes. “Ela pode ser resistente a mais de uma penicilina, mas não é multirresistente, porque são medicamentos da mesma classe”, explica Heinemann.

A preocupação aumenta quando a resistência atinge antibióticos considerados de última escolha, reservados para infecções que não respondem aos tratamentos mais comuns. É o caso dos carbapenêmicos, como o meropenem e o imipenem, usados contra infecções graves. “O antibiótico mais simples não dá mais conta porque a bactéria tem resistência. Aí você vai ter que usar moléculas mais recentes, mais complexas”, afirma o pesquisador.

Um exemplo foi identificado em uma píton-reticulada, espécie nativa do sul e do sudeste da Ásia, resgatada do tráfico pela Polícia Ambiental no município de São Paulo. Em amostras de fezes da serpente, pesquisadores encontraram uma linhagem de Pseudomonas aeruginosa resistente a carbapenêmicos e à combinação de piperacilina com tazobactam. A bactéria também apresentava genes associados à virulência. A Organização Mundial da Saúde classifica P. aeruginosa resistente a carbapenêmicos como um patógeno de alta prioridade, devido à dificuldade de tratar infecções causadas por essas linhagens.

Cabeça de uma píton-reticulada em close, com escamas em padrão de losangos pretos, amarelos e cinza e olho âmbar.
Píton-reticulada (Malayopython reticulatus), serpente nativa do Sul e do Sudeste Asiático. Uma delas, resgatada do tráfico em São Paulo, carregava uma Pseudomonas aeruginosa resistente a antibióticos de última escolha. Foto: Rushenb / Wikimedia Commons

O trabalho que descreve o caso foi publicado em 2026 na revista New Microbes and New Infections. Os autores também analisaram o genoma da bactéria, que revelou tratar-se de uma linhagem ainda não descrita. “Identificar novos clones ajuda a comunidade científica internacional a monitorar a evolução e a diversidade ecológica de patógenos clinicamente importantes antes que eles causem surtos generalizados”, afirma o microbiologista chileno Nilton Lincopan, coordenador do estudo e pesquisador principal do Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos (ARIES), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão financiados pela FAPESP, com sede na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A bactéria isolada da píton foi encontrada como parte de sua microbiota, e não em um quadro de infecção. Ainda assim, o animal pode funcionar como um reservatório. “Os resultados reforçam a necessidade de incorporar a avaliação microbiológica aos protocolos de manejo de animais em centros de reabilitação, a fim de prevenir a possível disseminação desses microrganismos para humanos, o ambiente ou outros animais”, aponta o médico veterinário Fábio Parra Sellera, coautor do estudo.

Combate na origem

Para os pesquisadores, enfrentar o problema passa pelo uso racional de antibióticos, tanto na medicina humana quanto na veterinária. Isso significa evitar o uso excessivo, mas também não deixar de tratar infecções quando necessário. “Se um animal com processo infeccioso não é tratado, a bactéria continua ali e pode acabar sendo mais disseminada”, diz Santos. Heinemann acrescenta que, quando um medicamento mais simples é suficiente, deve-se dar preferência a ele, em vez de recorrer aos antibióticos de última escolha.

Para os animais silvestres de vida livre, a principal medida é evitar que sejam retirados da natureza. O combate ao tráfico, porém, também exige atenção às condições econômicas que alimentam o comércio ilegal. “Quem pega o animal na floresta talvez seja o mais vulnerável”, afirma Heinemann. Já para os animais mantidos legalmente em cativeiro, a prevenção depende de práticas de bem-estar e biosseguridade. E a quem deseja ter um animal silvestre, a orientação é adquiri-lo apenas de criadores legalizados.

O cuidado também vale para encontros com animais silvestres em trilhas e parques. A recomendação é não alimentá-los nem tentar tocá-los. Além de habituá-los à presença humana, o contato pode favorecer a troca de patógenos entre pessoas e animais. “Mesmo que eu pegue e solte, eu já estressei o animal”, afirma Heinemann. “Então, veja de longe, observe e vá embora.”

Projetos

  1. Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos – Projeto ARIES (nº 21/10599-3); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisador responsável Arnaldo Lopes Colombo (Unifesp).
  2. Epidemiologia molecular de Escherichia coli resistentes a antimicrobianos de importância clínica isoladas de gambás (Didelphis spp.) resgatados em centro de manejo de fauna silvestre na cidade de São Paulo (nº 24/17243-8); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Marcos Bryan Heinemann (USP); Beneficiário Gabriel Siqueira dos Santos.
  3. Vigilância de patógenos bacterianos de prioridade crítica em animais silvestres e exóticos (nº 23/12538-7); Modalidade Bolsa de Iniciação Científica; Pesquisador responsável Nilton Erbet Lincopan Huenuman (USP); Beneficiário Guilherme Emanuel Pereira de Paiva.

Artigos científicos

  1. POMPEU, B. A. A. et al. Genomic features of mecA-harboring Staphylococcus epidermidis infecting an illegally traded rufous-bellied thrush (T. rufiventris). Veterinary Research Communications. v. 50, 601. 2026.
  2. SANTOS, G. S. dos et al. Ring-tailed coatis (Nasua nasua) are major carriers of ESBL-producing and diarrheagenic E. coli in an Ecological Park in São Paulo, Brazil. Comparative Immunology, Microbiology and Infectious Diseases. v. 126, 102451. mar. 2026.
  3. PAIVA, G. E. et al. Illegally trafficked exotic snake as a reservoir for the novel carbapenem-resistant and hypervirulent Pseudomonas aeruginosa ST4309. New Microbes and New Infections. v. 73, 101833. 25 ago. 2026.
  4. GRAM ANTIMICROBIAL RESISTANCE COLLABORATORS. Global burden of bacterial antimicrobial resistance 1990–2021: A systematic analysis with forecasts to 2050. The Lancet. v. 404, n. 10459, p. 1199-226. 28 set. 2024.