Resistência · Parte 3 de 4 · Tráfico de animais
Risco biológico na rota do tráfico de animais
Estresse, confinamento e convívio com humanos transformam animais traficados em reservatórios de bactérias resistentes
A ação da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo livrou um sabiá-laranjeira do tráfico de animais silvestres, mas não foi suficiente para salvá-lo. Encaminhada ao Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (CEMACAS), a ave apresentava lesões na pele da cabeça. A análise de uma amostra coletada da região identificou a bactéria Staphylococcus epidermidis, frequentemente associada a infecções hospitalares em humanos. O tratamento com cefalexina e cetoconazol não surtiu efeito. O quadro clínico se agravou e o animal acabou sendo submetido à eutanásia. Em laboratório, a bactéria se mostrou resistente a cinco dos dez antimicrobianos testados, característica que, segundo os pesquisadores, pode ter contribuído para o fracasso do tratamento.
O caso, descrito em artigo publicado em 2026 na revista Veterinary Research Communications, chama a atenção para um aspecto pouco discutido do tráfico de animais silvestres: o risco sanitário. Além de retirar indivíduos da natureza e ameaçar a biodiversidade, o comércio ilegal pode favorecer a circulação de bactérias resistentes a antibióticos entre animais, pessoas e ambientes. “Muitos desses animais do tráfico vêm de lugares distantes, como a Amazônia, e chegam em condições precárias”, afirma o professor Marcos Bryan Heinemann, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP).
Bactérias se tornam resistentes quando sofrem mutações ou adquirem genes — vindos do próprio ambiente ou de outras bactérias — que as tornam capazes de sobreviver a medicamentos antes eficazes contra elas. Quando um antibiótico é usado de forma inadequada ou excessiva na medicina humana ou veterinária, as bactérias sensíveis são eliminadas, enquanto as resistentes sobrevivem. Com isso, elas não apenas se multiplicam e se espalham pelo ambiente, como também podem compartilhar esses genes de resistência com outras bactérias.
O problema já é uma das principais ameaças à saúde global. Em 2021, a resistência antimicrobiana causou diretamente a morte de 1,14 milhão de pessoas, segundo estudo publicado em 2024 na revista The Lancet. Mantidas as tendências atuais, o número de mortes humanas causadas diretamente pelo problema deve chegar a 1,91 milhão por ano em 2050, somando mais de 39 milhões entre 2025 e 2050.
Rota de disseminação
O tráfico de animais silvestres cria condições ideais para a circulação e disseminação de bactérias resistentes. Durante a captura, o transporte e a passagem por intermediários, os animais enfrentam privação alimentar, desidratação e estresse extremo, fatores que enfraquecem o sistema imune. O confinamento e a convivência próxima com fezes ou com espécimes de origens distintas agravam o cenário. “O receptador costuma receber animais de vários locais e misturá-los. Isso gera estresse e coloca em contato bactérias diferentes, que podem trocar genes de resistência entre si”, explica Heinemann.
O risco persiste mesmo após a apreensão. Em resgates de grande porte, nem sempre há infraestrutura para o isolamento adequado, e indivíduos de proveniências diversas acabam alojados juntos. “Se houvesse um transporte adequado, com a separação desses animais, a disseminação seria muito menor”, afirma Gabriel Siqueira dos Santos, doutorando na FMVZ-USP. Segundo ele, o manejo, o transporte e o estresse contínuo alteram a microbiota dos animais, favorecendo a colonização e a infecção por bactérias resistentes.
Além da troca de microrganismos entre a própria fauna, a rota do tráfico aproxima esses animais do convívio humano e dos centros urbanos. “Essas bactérias são selecionadas dentro de um ambiente antropizado. Nós usamos antimicrobianos, descartamos no lixo, no esgoto, então tem toda uma microbiota urbana selecionada para a resistência”, diz Santos.
Em seu doutorado, Santos investiga a presença de bactérias resistentes na microbiota de gambás, animais silvestres adaptados à vida nas cidades. Em estudo anterior com quatis no Parque Ecológico do Tietê, a equipe identificou bactérias Escherichia coli multirresistentes em 56,4% dos animais examinados, um indício de como a urbanização pode favorecer a circulação desses microrganismos na fauna.
Classes críticas
Os antibióticos são divididos em classes, que reúnem medicamentos com características e mecanismos de ação semelhantes. Uma bactéria é considerada multirresistente quando apresenta resistência a pelo menos um medicamento de três ou mais classes diferentes. “Ela pode ser resistente a mais de uma penicilina, mas não é multirresistente, porque são medicamentos da mesma classe”, explica Heinemann.
A preocupação aumenta quando a resistência atinge antibióticos considerados de última escolha, reservados para infecções que não respondem aos tratamentos mais comuns. É o caso dos carbapenêmicos, como o meropenem e o imipenem, usados contra infecções graves. “O antibiótico mais simples não dá mais conta porque a bactéria tem resistência. Aí você vai ter que usar moléculas mais recentes, mais complexas”, afirma o pesquisador.
Um exemplo foi identificado em uma píton-reticulada, espécie nativa do sul e do sudeste da Ásia, resgatada do tráfico pela Polícia Ambiental no município de São Paulo. Em amostras de fezes da serpente, pesquisadores encontraram uma linhagem de Pseudomonas aeruginosa resistente a carbapenêmicos e à combinação de piperacilina com tazobactam. A bactéria também apresentava genes associados à virulência. A Organização Mundial da Saúde classifica P. aeruginosa resistente a carbapenêmicos como um patógeno de alta prioridade, devido à dificuldade de tratar infecções causadas por essas linhagens.
O trabalho que descreve o caso foi publicado em 2026 na revista New Microbes and New Infections. Os autores também analisaram o genoma da bactéria, que revelou tratar-se de uma linhagem ainda não descrita. “Identificar novos clones ajuda a comunidade científica internacional a monitorar a evolução e a diversidade ecológica de patógenos clinicamente importantes antes que eles causem surtos generalizados”, afirma o microbiologista chileno Nilton Lincopan, coordenador do estudo e pesquisador principal do Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos (ARIES), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão financiados pela FAPESP, com sede na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
A bactéria isolada da píton foi encontrada como parte de sua microbiota, e não em um quadro de infecção. Ainda assim, o animal pode funcionar como um reservatório. “Os resultados reforçam a necessidade de incorporar a avaliação microbiológica aos protocolos de manejo de animais em centros de reabilitação, a fim de prevenir a possível disseminação desses microrganismos para humanos, o ambiente ou outros animais”, aponta o médico veterinário Fábio Parra Sellera, coautor do estudo.
Combate na origem
Para os pesquisadores, enfrentar o problema passa pelo uso racional de antibióticos, tanto na medicina humana quanto na veterinária. Isso significa evitar o uso excessivo, mas também não deixar de tratar infecções quando necessário. “Se um animal com processo infeccioso não é tratado, a bactéria continua ali e pode acabar sendo mais disseminada”, diz Santos. Heinemann acrescenta que, quando um medicamento mais simples é suficiente, deve-se dar preferência a ele, em vez de recorrer aos antibióticos de última escolha.
Para os animais silvestres de vida livre, a principal medida é evitar que sejam retirados da natureza. O combate ao tráfico, porém, também exige atenção às condições econômicas que alimentam o comércio ilegal. “Quem pega o animal na floresta talvez seja o mais vulnerável”, afirma Heinemann. Já para os animais mantidos legalmente em cativeiro, a prevenção depende de práticas de bem-estar e biosseguridade. E a quem deseja ter um animal silvestre, a orientação é adquiri-lo apenas de criadores legalizados.
O cuidado também vale para encontros com animais silvestres em trilhas e parques. A recomendação é não alimentá-los nem tentar tocá-los. Além de habituá-los à presença humana, o contato pode favorecer a troca de patógenos entre pessoas e animais. “Mesmo que eu pegue e solte, eu já estressei o animal”, afirma Heinemann. “Então, veja de longe, observe e vá embora.”
Projetos
- Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos – Projeto ARIES (nº 21/10599-3); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisador responsável Arnaldo Lopes Colombo (Unifesp).
- Epidemiologia molecular de Escherichia coli resistentes a antimicrobianos de importância clínica isoladas de gambás (Didelphis spp.) resgatados em centro de manejo de fauna silvestre na cidade de São Paulo (nº 24/17243-8); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Marcos Bryan Heinemann (USP); Beneficiário Gabriel Siqueira dos Santos.
- Vigilância de patógenos bacterianos de prioridade crítica em animais silvestres e exóticos (nº 23/12538-7); Modalidade Bolsa de Iniciação Científica; Pesquisador responsável Nilton Erbet Lincopan Huenuman (USP); Beneficiário Guilherme Emanuel Pereira de Paiva.
Artigos científicos
- POMPEU, B. A. A. et al. Genomic features of mecA-harboring Staphylococcus epidermidis infecting an illegally traded rufous-bellied thrush (T. rufiventris). Veterinary Research Communications. v. 50, 601. 2026.
- SANTOS, G. S. dos et al. Ring-tailed coatis (Nasua nasua) are major carriers of ESBL-producing and diarrheagenic E. coli in an Ecological Park in São Paulo, Brazil. Comparative Immunology, Microbiology and Infectious Diseases. v. 126, 102451. mar. 2026.
- PAIVA, G. E. et al. Illegally trafficked exotic snake as a reservoir for the novel carbapenem-resistant and hypervirulent Pseudomonas aeruginosa ST4309. New Microbes and New Infections. v. 73, 101833. 25 ago. 2026.
- GRAM ANTIMICROBIAL RESISTANCE COLLABORATORS. Global burden of bacterial antimicrobial resistance 1990–2021: A systematic analysis with forecasts to 2050. The Lancet. v. 404, n. 10459, p. 1199-226. 28 set. 2024.