Resistência.

Resistência · Parte 2 de 4 · Malária

O cerco ao vivax

Responsável por mais de 80% dos casos de malária no Brasil, o Plasmodium vivax é alvo de pesquisas que buscam desenvolver vacinas e monitorar a resistência aos medicamentos.

Por Thabata Oliveira 3 de novembro de 2026 9 min de leitura
Fêmea do mosquito Anopheles albimanus, de corpo amarelado e abdômen avermelhado pelo sangue, pousada sobre a pele humana enquanto se alimenta.
Fêmea de Anopheles albimanus se alimentando de sangue humano. Mosquitos do gênero Anopheles transmitem os parasitas causadores da malária. Foto: James Gathany / Wikimedia Commons

Febre alta, calafrios, suor abundante, dor de cabeça e uma exaustão que pode durar dias. Os sintomas costumam se repetir em ciclos, acompanhando a multiplicação do parasita no sangue. Esse é o quadro clássico da malária, doença causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida pela picada de mosquitos do gênero Anopheles. Embora possa ser prevenida e tratada, a doença provocou cerca de 282 milhões de casos e 610 mil mortes no mundo em 2024, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A grande maioria dos casos ocorreu na África, onde três em cada quatro mortes foram de crianças com menos de 5 anos.

Fora da África Subsaariana, o Plasmodium vivax é a espécie predominante em grande parte dos países e responde por mais de 80% dos casos de malária no Brasil. Apesar de sua ampla distribuição, ainda não existe vacina licenciada contra esse parasita. As duas vacinas recomendadas pela OMS, a RTS,S (Mosquirix) e a R21/Matrix-M, são direcionadas ao Plasmodium falciparum, espécie responsável pela maior parte dos casos e das mortes por malária no continente africano.

“Essas vacinas não conferem proteção esterilizante, ou seja, não impedem a infecção. Elas retardam o primeiro episódio de malária e tornam os quadros mais brandos, reduzindo, consequentemente, a mortalidade”, explica Irene Soares, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP).

O parasita mais letal recebeu décadas de investimentos em pesquisa, enquanto a espécie predominante no Brasil ficou em segundo plano. “A malária causada pelo P. vivax continua sendo negligenciada”, afirma Soares. Há cerca de 30 anos, seu grupo investiga proteínas do parasita que possam servir de base para uma vacina.

Um dos resultados desse trabalho é a Vivaxin, candidata a vacina cujas pesquisas iniciais foram conduzidas pelo grupo da USP, em colaboração com pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Instituto Pasteur, na França, e com apoio da FAPESP. Para avançar até os testes em humanos, a equipe se associou ao Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que além de contribuir com a formulação da vacina, é responsável pela condução do ensaio clínico, e à farmacêutica Cristália, que preparou o produto final. Em outubro de 2026, a Vivaxin se tornou a primeira candidata brasileira contra a malária autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a ser testada em humanos.

A Vivaxin busca bloquear o parasita ainda no início da infecção. Quando o mosquito infectado pica uma pessoa, deposita na pele os esporozoítos, formas do Plasmodium que alcançam a corrente sanguínea e seguem para o fígado. Nas células hepáticas, o parasita se multiplica sem provocar sintomas. Depois, outras formas são liberadas na circulação e invadem os glóbulos vermelhos, desencadeando os sintomas da doença. “Se a gente consegue bloquear o desenvolvimento já nesse estágio inicial, é muito melhor”, diz Soares.

Prancha ilustrada com 30 círculos numerados, cada um mostrando um glóbulo vermelho com o parasita da malária em um estágio diferente de crescimento, em tons de rosa, roxo e azul.
Os estágios de crescimento do Plasmodium vivax dentro das hemácias: do glóbulo vermelho saudável (1) às formas que se multiplicam e rompem a célula, liberando novos parasitas na circulação. Ilustração de 1971. Ilustração: Gertrude H. Nicholson / National Library of Medicine (domínio público)

O alvo da vacina é a proteína circunsporozoíta (CSP), que recobre a superfície dos esporozoítos. “Ela é como se fosse uma capa, o antígeno majoritário da superfície”, descreve a pesquisadora. A escolha tem raízes nos estudos de Ruth e Victor Nussenzweig. Em 1967, Ruth demonstrou que camundongos imunizados com esporozoítos atenuados por radiação ficavam protegidos contra a malária. Anos depois, o casal identificou a CSP como um dos principais alvos da resposta imune contra o parasita. A mesma proteína serve de base para as vacinas recomendadas pela OMS.

A CSP tem uma região central formada por sequências curtas de aminoácidos que se repetem e são reconhecidas pelos anticorpos. Outra parte, chamada região C-terminal, contém trechos reconhecidos pelos linfócitos T, células que também participam da resposta imune. No P. vivax, a região central da CSP apresenta três variantes conhecidas, chamadas VK210, VK247 e P. vivax-like.

A Vivaxin é um imunizante de proteína recombinante, ou seja, utiliza uma proteína produzida em laboratório a partir de instruções genéticas, em vez de extrair o antígeno diretamente do parasita. Além disso, a proteína é híbrida: reúne, em uma única molécula, sequências das três variantes da região central da CSP e a região C-terminal. A estratégia busca fazer com que o sistema imune reconheça diferentes versões do parasita e produza anticorpos capazes de se ligar a elas. Outras candidatas experimentais contra o P. vivax incluem apenas as variantes VK210 e VK247. “Colocamos a terceira porque há estudos aqui no Brasil mostrando que ela tem uma circulação expressiva, que deve ser contemplada na vacina”, explica Soares. O desenho dessa proteína, batizada de PvCSP-All epitopes, foi descrito em artigo publicado em 2017 na revista Frontiers in Immunology.

Sozinha, a proteína não basta. “Toda vacina baseada em proteína recombinante precisa de adjuvante. Sem ele, você não consegue induzir uma resposta expressiva”, diz a pesquisadora. O escolhido foi o CTVad3, uma nanoemulsão à base de esqualeno que potencializa a produção de anticorpos. Nos experimentos pré-clínicos, a formulação protegeu todos os camundongos expostos ao parasita. O custo também pesou na escolha. “É um adjuvante relativamente barato, e isso conta quando se pensa em imunização em massa.”

O ensaio clínico de fase 1, previsto para começar em 2027 em Belo Horizonte, deverá incluir 48 voluntários saudáveis e avaliar principalmente a segurança da formulação. Os pesquisadores também vão acompanhar a resposta imune, observando os níveis de anticorpos e por quanto tempo eles permanecem elevados. Os resultados ajudarão a determinar o número de doses necessárias.

Paralelamente, o grupo testa combinações da CSP com proteínas de outras fases do ciclo do parasita, presentes nas formas que circulam pelo sangue. A ideia é criar uma segunda linha de defesa. “Basta um esporozoíto escapar para ele se multiplicar no fígado e depois ir para o sangue”, diz Soares.

Em um artigo publicado na revista Vaccine, em outubro de 2026, a equipe descreve uma proteína híbrida que une a CSP, com sequências das três variantes do P. vivax, e um fragmento da MSP1, proteína presente na superfície dos merozoítos — formas do parasita que invadem os glóbulos vermelhos. Em camundongos, a formulação induziu altos níveis de anticorpos contra os dois estágios do parasita. Ainda não se sabe, porém, se essa resposta é suficiente para proteger os animais contra a infecção. Essa questão será investigada nas próximas etapas da pesquisa.

Alvos alternativos

Outra aposta parte de uma proteína menos explorada. No Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, pesquisadores testaram uma vacina de RNA mensageiro (mRNA) contra a E140, proteína presente em diferentes espécies de Plasmodium e em mais de uma fase do ciclo do parasita. O estudo, financiado pela FAPESP, foi coordenado por Daniel Youssef Bargieri, professor do Departamento de Parasitologia do ICB, e Norbert Pardi, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Os resultados foram publicados na edição de dezembro de 2026 da revista Molecular Therapy: Nucleic Acids.

“A E140 é multiespécie e multiestágio. A pergunta do nosso projeto foi se essa proteína poderia ser utilizada contra o Plasmodium vivax, que é a espécie predominante no nosso país”, conta Rodolfo Ferreira Marques, professor de parasitologia na Faculdade de Medicina de Marília (Famema) e primeiro autor do artigo.

No laboratório de Pardi, Marques produziu moléculas de mRNA com as instruções para fabricar a E140, envoltas em nanopartículas de lipídios. A tecnologia é a mesma utilizada em algumas vacinas contra a covid-19. Em vez de introduzir a proteína pronta no organismo, o imunizante fornece às células as instruções para produzi-la.

Em camundongos, a vacina de mRNA reduziu a quantidade de parasitas no sangue e aumentou a sobrevivência dos animais. Para avaliar o potencial contra o P. vivax, os pesquisadores fizeram testes em laboratório na Fiocruz Rondônia, em Porto Velho, com parasitas obtidos de pacientes e anticorpos produzidos por camundongos vacinados. Os anticorpos dificultaram a entrada do parasita nos glóbulos vermelhos jovens, reduzindo a invasão em 56% a 78%. Bargieri ressalta que o resultado não representa a eficácia de uma vacina em seres humanos.

Se a gente tiver uma proteção contra o esporozoíto e depois uma proteção contra as formas sanguíneas, talvez essa proteção seja potencializada. É por isso que a gente aposta em antígenos multiestágio.

— Daniel Youssef Bargieri, Departamento de Parasitologia do ICB-USP

Urgência brasileira

O Brasil assumiu o compromisso de eliminar a transmissão da malária em território nacional até 2035. A meta faz parte do programa Brasil Saudável, voltado ao enfrentamento de doenças que atingem sobretudo populações vulneráveis. O país tem avançado nesse sentido. Em 2025, foram registrados cerca de 118 mil casos contraídos em território nacional, uma queda de 15% em relação ao ano anterior e o menor número em quase cinco décadas. Segundo o Ministério da Saúde, o resultado reflete a ampliação do diagnóstico, a oferta de testes rápidos e o uso de medicamentos mais eficazes.

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente o diagnóstico, os medicamentos e o acompanhamento de cada paciente até o 28º dia. Cerca de 99% dos casos de malária no país se concentram na Amazônia. “Os agentes de endemias pegam um barco, viajam uma, duas horas para o paciente receber a dose e voltam no dia seguinte para conferir. É uma coisa única”, afirma o parasitologista Cláudio Marinho, do ICB-USP.

O tratamento varia conforme a espécie do parasita. Para a malária causada pelo P. vivax, a meta é a chamada cura radical, que exige atacar o parasita em duas frentes. A cloroquina combate as formas que circulam no sangue e causam os sintomas. Já a primaquina ou a tafenoquina combate os hipnozoítos, que são as formas do parasita que permanecem dormentes no fígado e voltam a se multiplicar semanas ou meses depois, provocando recaídas. A primaquina era tomada por sete dias, e muitos pacientes abandonavam o tratamento antes do fim. A tafenoquina, de dose única e disponível no SUS desde 2023, facilitou a adesão. Mas o medicamento tem uma limitação importante. “Em quem tem deficiência da enzima G6PD, ela pode provocar a destruição das hemácias, por isso é preciso fazer um teste antes de administrá-la”, explica a parasitologista Jamille Dombrowski, também do ICB. Já o P. falciparum é combatido com uma combinação de medicamentos à base de artemisinina.

A resistência a esses remédios é um dos maiores desafios para as próximas décadas. Para antecipá-la, pesquisadores recorrem à vigilância genômica, que rastreia no DNA do parasita mutações capazes de reduzir a eficácia dos antimaláricos. É nessa frente que atuam Dombrowski e Marinho, que estudam o perfil de resistência dos parasitas que circulam no país. “Aqui na América do Sul, os genes e as mutações podem ser diferentes dos da África e do Sudeste Asiático”, diz Dombrowski.

Marinho atribui parte dessas diferenças à história da malária no continente. O P. vivax chegou às Américas há cerca de 500 anos, com os primeiros europeus, e o P. falciparum veio depois, com os africanos escravizados. Desde então, as populações dos parasitas passaram por diferentes pressões seletivas, inclusive as provocadas pelos medicamentos. “Estudar o DNA desses parasitas é entender como eles se adaptaram aqui e que pressões sofreram”, diz o pesquisador.

A cloroquina mostra como o problema é complexo. No Brasil, ela não é mais usada contra o P. falciparum, pois populações resistentes ao medicamento foram selecionadas e se disseminaram décadas atrás. Hoje, a cloroquina serve para tratar o P. vivax, ainda sensível. Mas as duas espécies convivem na Amazônia, e as infecções mistas muitas vezes passam despercebidas no microscópio. Assim, mesmo sem ser o alvo, o P. falciparum acaba exposto à cloroquina administrada contra o P. vivax e segue sob pressão seletiva.

A ameaça mais temida é a resistência à artemisinina, base do tratamento do P. falciparum. Ela surgiu no Sudeste Asiático e já chegou à África. Na América do Sul, mutações ligadas a essa resistência chegaram a aparecer em parasitas da Guiana, embora sem se espalhar; no Brasil, nunca foram encontradas. “Vai aparecer. É só questão de tempo”, diz Marinho.

Detectar possíveis sinais de resistência antes que se espalhem é o objetivo de um projeto coordenado por Dombrowski, com apoio da FAPESP e parceria com o Ministério da Saúde. A proposta é monitorar, em quatro estados amazônicos — Acre, Rondônia, Pará e Amapá —, alterações nos genes do parasita associadas à resistência e características genéticas humanas que podem influenciar a resposta ao tratamento. A coleta será feita em áreas de garimpo, assentamentos e cidades. Para analisar as amostras, a equipe pretende usar o MinION, sequenciador portátil da Oxford Nanopore, menor que um celular e capaz de realizar o procedimento no próprio local.

Equipamentos dessa plataforma chegaram ao Brasil durante a pandemia de covid-19, mas parte deles está sem uso em centros estaduais, onde as equipes foram treinadas para sequenciar o coronavírus. A proposta é recuperar esses aparelhos, capacitar os profissionais e realizar o sequenciamento em cada estado, sem precisar transportar as amostras até um laboratório central. “Precisamos estar preparados para identificar a resistência de forma precoce”, diz Dombrowski.

Projetos

  1. Geração e análise da imunogenicidade de proteínas recombinantes baseadas nas diferentes formas alélicas do antígeno circumsporozoíta de Plasmodium vivax visando o desenvolvimento de uma vacina universal contra malária (nº 12/13032-5); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisadora responsável Irene da Silva Soares (USP).
  2. Descoberta de alvos vacinais e compostos contra transmissão da malária (nº 21/06769-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Jovem Pesquisador, Fase 2; Pesquisador responsável Daniel Youssef Bargieri (USP).
  3. Utilização da plataforma tecnológica baseada em mRNA como estratégia para o desenvolvimento de uma formulação vacinal multiantígeno/multiestágio contra Plasmodium vivax (nº 21/04455-9); Modalidade Bolsa de Pós-Doutorado; Beneficiário Rodolfo Ferreira Marques; Pesquisador responsável Daniel Youssef Bargieri (USP).
  4. Abordagem genômica para o estudo da relação parasito-hospedeiro na malária (nº 24/19333-4); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Jovem Pesquisador; Pesquisadora responsável Jamille Gregório Dombrowski (USP).
  5. I-GAME: Genômica integrada e IA como ferramenta para eliminação da malária no Brasil (nº 24/10186-9); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Cláudio Romero Farias Marinho (USP).

Artigos científicos

  1. GIMENEZ, A. M. et al. Vaccine containing the three allelic variants of the Plasmodium vivax circumsporozoite antigen induces protection in mice after challenge with a transgenic rodent malaria parasite. Frontiers in Immunology. v. 8, art. 1275. out. 2017.
  2. DINIZ, L. L. C. L. et al. A multi-antigen chimeric PvCSP–MSP1₁₉ vaccine induces robust humoral responses against distinct stages of Plasmodium vivax. Vaccine. v. 93, art. 129197. out. 2026.
  3. MARQUES, R. F. et al. An mRNA-lipid nanoparticle vaccine targeting the Plasmodium vivax E140 antigen. Molecular Therapy: Nucleic Acids. v. 37, art. 103083. dez. 2026.